domingo, 26 de fevereiro de 2017

Os louváveis casos de Aracaju e de Feira de Santana

Encerrada nossa análise sobre que poderá ou não cancelar a sua pintura padronizada pelo país, hoje vamos a dois casos em que houve o retorno da diversidade visual que permite a identificação de empresas por meio de pinturas personalizadas: Aracaju, em Sergipe e Feira de Santana, na Bahia.

Vou também falar um pouco da minha cidade-natal, Florianópolis, que retomou a diversidade visual na década de 90 mas retomou o fardamento no início da década de 2010 com um sistema que cancelou qualquer forma de identificação das empresas, informação secretamente exclusiva nas mãos de autoridades e entusiastas, compulsoriamente omitida para a população.

Porque padronizar a pintura dos ônibus?

Para início de conversa, faço esta pergunta para responder o porquê da intenção da maioria das gestões do transporte em impor o fardamento dos ônibus em cada cidade. A coisa é meio complexa, mas não difícil de entender. Vamos lá.

No Brasil, o sistema de ônibus de cada município se dá por meio de concessão. O sistema em si é público, mas operado por empresas privadas. Já se tentou criar empresas públicas de transporte, mas em todos os casos, até onde eu sei, a iniciativa fracassou. As autoridades encontraram outra ideia para deixar claro a população o fato de que quem está oferecendo o transporte é o poder público e não as empresas privadas, que são apenas operadoras contratadas do sistema.

Como operadoras do sistema de concessão, as empresas atuam como pessoa jurídicas que se tornam funcionárias da prefeitura. E como tais, devem usar uniforme da prefeitura. Em Curitiba, no ano de 1974, no auge da ditadura militar, Jaime Lerner, criador do sistema, decidiu colocar uniforme nos ônibus, inspirado nos veículos militares, com um número do lado e o nome da cidade em destaque. Criou-se a pintura padronizada, onde a empresa perde o direito de expor a sua marca ao público usuário.

Inspirado neste caso, Eduardo Paes, então prefeito do Rio, acreditando no estigma de "melhor sistema" consagrado pela capital paranaense - hoje palco da parcial operação político-jurídica Lava Jato  e cidade onde o fascismo cresce de forma alarmante - em 2010, decidiu implantar a pintura padronizada na frota carioca, dando início a pior fase do transporte na capital fluminense, hoje em séria crise econômica, política e cultural.

Claro que o fardamento não é indispensável. Em 1992, Salvador colocou o logo da prefeitura na pintura individualizada dos ônibus, em respeito à diversidade visual e aos usuários que desejam saber quem opera os ônibus em sua cidade, mesmo que seja em nome da prefeitura local. Ou seja, seria ideal que não houvesse padronização, como um funcionário que só precisa de um crachá para ser identificado como funcionário.

A diversidade visual de Aracaju

Aracaju, junto com a região metropolitana de Sergipe, tem um sistema de ônibus bastante organizado, mesmo tendo uma pintura de frota bastante diversificada. Até poucos anos tinha a pintura padronizada, mas com variação de cor por empresa e destaque para a logomarca de cada uma. Mas hoje, cada empresa tem a sua própria pintura, bem diversa uma da outra. O BRT tem pintura própria, mas destacando o nome da empresa na lataria.

O curioso que para compensar a diversidade visual dos ônibus, os funcionários de qualquer empresa é que tiveram a uniformização padronizada. Todos os funcionários, seja de qualquer empresa, na capital sergipana, usam exatamente o mesmo uniforme, com a logomarca da empresa colocada discretamente.

Feira de Santana: primeira licitação sem fardamento

Feira de Santana pode se gabar de ser a primeira cidade, e por enquanto a única, do país a entrar na nova onda de licitações sem impor um fardamento que destacasse o  sistema em si e não a empresa. Mas quase não iria ser assim.

Adotante da pintura padronizada por muitos anos, no anúncio de sua nova licitação, poucos anos atrás, houve um boato de que a pintura seguiria critério parecido com Curitiba, com cor mudado de acordo com o tipo de serviço. Houve outro boato de que entusiastas seriam os responsáveis por criar as tais pinturas. Não deu nem uma coisa, nem outra.

Com a vitória da licitação, as empresas vencedoras, duas famosas empresas paulistas, Rosa, de Tatuí (que opera fretamento em Niterói) e São João Votorantim, de Votorantim, foram liberadas para colocarem as suas próprias pinturas em suas frotas.

Isso fez com que o sistema de Feira de Santana fosse o primeiro sistema pós-2010 a dispensar da exigência de licitação a imposição de uma pintura criada a pedido do sistema de transportes. A Rosa escolheu como pintura uma alteração leve da estampa que utiliza em Tatuí. A São João Votorentim optou por criar uma inédita, muito bonita por sinal. 

Aliás,a s duas pinturas são lindas, enchendo de beleza as ruas da já bela Feira de Santana. Hoje a cidade baiana segue firme com a sua diversidade visual, permitindo ao usuário o conhecimento das vencedoras da licitação feirense.

Florianópolis - o cancelamento de algo que deu certo

Tem gente que não raciocina direito. Não raramente alguém, com intenções de se igualar a outrem, desiste de uma boa ideia, com sucesso garantido e adota outra, logicamente destinada ao fracasso. Foi o caso de Florianópolis, a capital catarinense, que nos anos 90 aboliu a pintura padronizada para retomá-la em 2011, de forma bastante anti-democrática.

O sistema tem cerca de 5 empresas municipais. Até o final dos anos 80, havia uma padronização visual que, como no caso de Aracaju na mesma época, a cor variava conforme a empresa. Nos anos 90, esta padronização foi cancelada e as empresas passaram a adotar a diversidade visual, cada uma com pintura e logomarcas bastante diversas. Foi um sucesso!

Mas em meados de 2011, nas intenções claras de imitar o sistema do Rio de Janeiro, a capital catarinense resolveu cancelar a diversidade visual e reuniu as empresas em um confuso balaio de gatos chamado "Consórcio Fênix", com uma só pintura, plagiada da cidade paulista de Limeira e sem qualquer forma de identificação de cada empresa, do contrário da padronização encerrada nos anos 90.

Mostra que em prol de um modismo, pode se adotar ideias fracassadas que não ajudam em nada na melhoria do sistema e escondem do usuário que paga tanto a prefeitura (por meio de impostos) quanto o sistema (pelo pagamento da passagem), o direito de se informar sobre as empresas licitadas que operam em sua cidade.

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