terça-feira, 15 de março de 2016

O problema não é a estética, é a identidade

Quando o município do Rio lançou em 2010 o modismo da padronização visual, invenção criada em 1974 pelo arquiteto curitibano Jaime Lerner, muitos busólogos não gostaram. Mas os defensores da medida, em reação a essa reprovação argumentaram que a defesa da diversidade de pinturas tinha foco na estética dos ônibus. 

Preciso falar sobre isso, mas não falarei como usuário e sim como entusiasta de ônibus, um busófilo (pois não sou busólogo por não entender a parte técnica do funcionamento mecânico de um ônibus). Acho que a palavra busófilo define melhor a minha função no hobby.

Olhem esta foto. É do sistema recém inaugurado de Nova Iguaçú, cidade que tenho a oportunidade de ir de vez em quando por ter parentes morando por lá. É uma belíssima pintura que inclui uma das melhores combinações de cores existentes no mundo: alaranjado (minha cor favorita) com prata. Mas mesmo assim não estou feliz. Sabem o porquê?

Quando eu aprendi a gostar de ônibus, um dos fatores que mais me fizeram aderir ao hobby é a diversidade de pinturas que dava prioridade a identificação de empresas. Cada empresa tinha a sua pintura própria e muitas lançavam mão da beleza e da criatividade para ilustrar as pinturas que as identificariam.

Mas Jaime Lerner, prefeito do tempo da ditadura, se inspirou em veículos militares e inventou a padronização visual dos ônibus. A ideia era dissociar os ônibus das empresas operadoras e mostrar aos usuários que quem estava oferecendo o transporte não era as empresas e sim as gestões públicas. A identificação de empresas passaria a ser exclusividade das secretarias de transportes por meio de documentos guardados escondidos nas suas gavetas.

Com a expansão da busologia, alguns entusiastas mais técnicos do transporte passaram a recorrer a macetes para identificar as empresas de ônibus, já que em muitos sistemas sequer os nomes das empresas, geralmente colocados de forma ilegível, como na capital carioca, nem mesmo eram colocados.

Já falei em outros blogues das desvantagens da pintura padronizada para os usuários, que ficam sem saber quem venceu as licitações. Várias gestões inventaram esse troço de "consórcio" que na prática não passa de mero enfeite para dizer que o transporte ficou modernizado (com uma ideia de quarenta e dois anos atrás?). Consórcio que só serve para dar poder de gestão a secretários de transporte, cuja função original era o de criar linhas e fiscalizar as operações. Hoje eles controlam tudo, como nas antigas e fracassadas empresas estatais.

Mas aqui falo como entusiasta. Estragaram meu hobby Acabaram com a diversidade de pinturas. Transformaram ônibus em meros táxis em tamanho família. Nunca fui entusiasta de táxis. E não serei de ônibus transformados em táxis.

Nunca admirei ônibus de São Paulo e de Curitiba por causa da padronização visual. Nem adianta colocar colossais articulados a encher os olhos: sem identidade, são meros táxis gigantescos com sanfonas no meio. Nunca gostei e estou deixando de gostar dos sistemas que aderem a essa catapora automotiva. E não há beleza de pintura ou veículos grandes e arrojados que me façam mudar de ideia.

Como nem tudo está perdido, a cidade de Feira de Santana, indo na contramão da tendência nacional, fez uma licitação limpa e liberou a identidade visual para as empresas, o que me leva a crer que a tese que alega que a padronização visual tem o objetivo de esconder irregularidades nas licitações não é tao absurda assim.

Tirando a citada cidade baiana de que gosto bastante, os sistemas seguem falidos. Coincidência ou não, cidades onde os sistemas têm pintura padronizada estão piorando com rapidez. A frota carioca está visivelmente sucateada e a operação já deixa muito a desejar, além da adoção de uma grande quantidade de medidas equivocadas.

Mas de qualquer forma, arruinaram o meu hobby mais antigo. A minha mais antiga lembrança da minha vida foi em 1972, ainda bebê, olhando três ônibus na Tijuca, mais tarde identificados por mim como as empresas Lins, Matias e CTC. Nem sabia que um dia, cerca de 40 anos depois, tudo isso iria acabar, de forma mais autoritária possível.

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