sábado, 2 de maio de 2015

O BRT não é uma verdade absoluta

Não gosto de ficar sem opções. Sempre penso que para cada problema existe um vasto repertório de soluções. Ficar preso a uma única opção só é possível em duas situações: 1) grave escassez de opções; 2) mediocridade intelectual. E nesta segunda que se encontra a iniciativa de aplicar a fórmula pronta que atende pelo nome de BRT (Bus Rapid Transit), infelizmente consagrada como ÚNICA solução para o transporte coletivo.

É com esta mentalidade tosca que autoridades têm preferido adotar a fórmula do BRT como milagre para tentar resolver os problemas de sistemas de ônibus nas principais cidade brasileiras. Adequado usar a palavra "milagre" pois o BRT é tratado como se fosse uma religião, totalmente baseada na ilusão da fé cega e não na lógica racional e muito menos influenciado pelo bom senso.

A aplicação do BRT em várias cidades brasileiras tem provado que é um sistema feito para certos sistemas e não para todos. É um sinal evidente de ignorância ver o BRT como a melhor solução para o transporte. É na verdade um trem curto e lerdo sobre pneus. Dá certo em alguns sistemas, em cidades com estrutura para recebê-lo como Curitiba, Brasília e Feira de Santana. Mas na maioria das cidades é um sistema inadequado.

A capital do Rio de Janeiro, cidade mais influente para o país e que por isso mesmo catapultou esta tsunami de curitibanização que se espalha feito catapora por todo o país, não foi feita para o BRT. Ao implantar o sistema na capital fluminense, Eduardo Paes agiu como o sapateiro que preferiu cortar o pé de uma pessoa para encaixá-lo no desejado sapatinho de cristal do que procurar outro sapato que se adequasse a tal pé. Como criança teimosa, Paes quis o BRT de qualquer maneira, não medindo sacrifícios nem consequências para aplicá-lo.

O BRT é na prática um sistema estético. Ninguém assume, mas este é o verdadeiro motivo da aplicação irresponsável e aleatória do sistema: o BRT é um ônibus bonito que anda em vias bonitas. É lindo de se ver e encaixa muito bem em propagandas de governos. Encaixa tão bem que gestões não hesitaram em uniformizar ônibus com as cores das prefeituras para que os nomes das gestões apareçam em destaque em detrimento do nome das empresas licitadas geralmente apagado.

Claro que o BRT é ótimo para campanhas que visem promover prefeitos, governadores e secretários de transportes a estadistas. Não tem a menor graça fazer campanhas com micrões com os nomes e as pinturas de empresas que não pertençam à políticos. Por isso a colocação de ônibus lindos com pinturas impostas pelo Poder Executivo se fazem necessárias. pura publicidade. Publicidade bem enganosa.

E a população onde fica? A ver navios, ou melhor: a ver ônibus. Bajulada na hora das gestões lançarem seus sistemas, a população nunca é ouvida quanto ao que ela espera do transporte. Reféns do Poder Executivo - e as pinturas padronizadas deixam isso bem claro - elas apenas têm que aceitar o que as autoridades, que nunca souberam administrar transporte público, visto o fracasso das empresas públicas de transportes, lhe oferecem enfiado goela abaixo.

O BRT não é a verdade absoluta. O ideal seria um planejamento logístico de transporte, que pudesse aproveitar a estrutura existente e que de fato melhorasse o transporte na prática, independente de ser bonito ou não. 

Melhorar os sistemas que existiam antes de 2010 seria o melhor a fazer, pois com a mudança de sistema, não apenas os problemas antigos não foram resolvidos como novos problemas apareceram, sobretudo o da redução de ônibus. Curioso que para autoridades que vivem a defender a mobilidade urbana, tirar ônibus das ruas e facilitar compra de automóveis soam medidas bastante contraditórias. Afinal, o que essas autoridades querem?

Isso é que dá entregar as decisões da mobilidade urbana a quem nunca se utiliza delas. Forasteiros leigos em trasporte, as autoridades mexem em terreno alheio às suas competências. E não será uma lerda minhoca motorizada vestida com o uniforme da prefeitura que irá salvar a mobilidade urbana.

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