segunda-feira, 6 de abril de 2015

Porque os ônibus da ANTT não tiveram padronização visual

A atitude de secretarias de transporte de impor pinturas-padrão em frotas urbanas municipais e intermunicipais virou uma febre. Mais e mais prefeitos e secretários não se satisfazem apenas em colocar os escudos de prefeituras nos ônibus de cada cidade e resolveram eles mesmos exigir uma farda, criada pelas gestões para dar impressa que as empresas são funcionárias das prefeituras e governos de Estado.

A ANTT, Agência Nacional de Transporte Terrestre, quase ia fazendo a mesma coisa, o que significaria uma pintura padronizada federal. Mas pouco depois de anunciar uma licitação federal, a agência desistiu. Um dos motivos era justamente a pintura padrão que no entender das autoridades iria prejudicar as empresas federais, várias delas com tradição consagrada.

Mas porque pintar ônibus urbano com fadas-padrão e não as empresas intermunicipais que rodam por todo o pais? Por mais estranho que pareça, existe uma explicação.

Empresas interestaduais precisam de publicidade

As empresas interestaduais são diferentes das empresas urbanas. Apesar de funcionalmente as pinturas individuais serem supérfluas para os passageiros, pois as empresas são escolhidas pelos passageiros observando os guichês e não os veículos, para os donos dessas empresas, a pintura individual é importante, sim. As linhas interestaduais não são linhas que você é obrigado a pegar todos os dias, do contrário do que acontece com as urbanas. 

As autoridades entenderam que as urbanas não precisam de publicidade, portando podem ter a sua identidade recusada. Apesar do incômodo para os passageiros de ter que identificar ônibus diferentes de uma só pintura, as autoridades entenderam que o que importa e deixar claro que as prefeituras é que estão oferecendo o transporte ao público, rompendo de vez a relação direta entre passageiro-empresa, transformando o usuário em refém de secretarias de transporte.

As prefeituras acharam melhor usar a própria imagem de suas gestões para identificar os ônibus, como se dissessem "agora quem opera o transporte urbano sou eu", ignorando o caráter de concessão evidenciado nos editais de licitação e funcionando na prática como uma encampação não assumida. Mas isso não é assunto para esta postagem.

Na verdade, o  sistema de transporte urbano, diferente do rodoviário de longa distância, é uma modalidade compulsória, em que você é obrigado a pegar a condução disponível para se deslocar em sua cidade. É algo que faz parte de seu dia-a-dia, como comprar pão.

Já as linhas interestaduais, não. Salvo raras exceções como executivos e pessoas que tem viagens longas em seu cotidiano de trabalho, o transporte interestadual é mais optativo. Você pega se quiser e quando quiser. E geralmente em tempos sazonais, como nas férias, por exemplo. Por isso mesmo, lhe dá a oportunidade de escolher a empresa operadora das linhas, o que não acontece no serviço urbano.

Por isso mesmo, as empresas podem ter pedido à ANTT o direito de manter suas identidades visuais para que elas pudessem ser utilizadas nas campanhas de publicidade para atrair passageiros. Creio ser esse o verdadeiro motivo da recusa das empresas interestaduais em uniformizar o seu visual, pintando todas as empresas com um mesmo padrão de estampa.

Mesmo assim, ainda achamos que a pintura individual das linhas urbanas deveria ser mantida. Pois mesmo sem a necessidade de publicidade, identificar empresas faria do passageiro um fiscal, não tendo que esperar o poder público agir para melhorar o transporte. Lutar por melhorias no transporte urbano ficou mais complicado e mais demorado, sem a identificação das empresas.

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