sábado, 4 de outubro de 2014

Um país de reféns do asfalto

Nosso transporte é refém dos meios que usam o asfalto para se locomover. Um meio caro, lento, perigoso que ainda continua sendo priorizado em qualquer projeto de mobilidade, urbana ou distante, de passageiros ou de cargas. Temos um território privilegiado para diversos tipos de modais, mas nos interessamos apenas pelos de asfalto. Porque esse cacoete?

A indústria automobilística manda em nosso país. Governos adoram usá-la como termômetro da nossa economia, como se existisse apenas esse tipo de indústria em nosso país. Se esquecem que bons empresários são aqueles que sabem diversificar os seus produtos, com a capacidade de mudarem de ramo em momentos em que isso é necessário. Afinal, empresários exigem versatilidade de seus empregados, porque não exigir uma versatilidade de si mesmos?

A superestimação da indústria automobilística, deu poder político aos seus gestores e fez surgir a priorização desse tipo de transporte, obrigando a todos os projetos de mobilidade, seja lá qual for a distância, a focarem nos meios que rodam em asfaltos.

País desperdiça vantagens de se diversificar os meios de transporte

Temos uma orla perfeita e uma invejável rede de rios para projetos que envolvam o transporte marítimo. Nosso céu é bem amplo para a circulação de aviões. O território é tão amplo que chega a ser uma tolice a não utilização de trens, muito mais rápidos que os ônibus para rodarem em linhas mais distantes. 

Aliás, deveria haver uma lei que proibisse a circulação de ônibus em linhas interestaduais, que deveriam ser feitas  pro trens. Se os empresários de ônibus tiverem maior coerência, saberiam que não seria nada prejudicial investir mais em trens, pois atrairia uma maior demanda que pagaria os custos com larga folga. É a tal versatilidade de produção que eu falei.

Economistas sem pre comprovaram e anda comprovam que rapidez diminui os custos dos produtos. E claro, além de garantir a qualidade dos produtos, sobretudo os mais perecíveis. Não sabem eles que o transporte via asfalto é arcaico e que vem dado muitos prejuízos a caminhoneiros e empresas pelo país afora? Porque ainda insistir em um meio que só gera prejuízo. Porque é mais barato? Creio não ser barato custar os prejuízos rotineiros. Prefiro fazer um grande gasto de uma vez, sabendo que não terei mais prejuízos, o que já significa um bom retorno desse grande gasto. Pensando a longo prazo, evitamos dores de cabeça futuras.

Conforto como prêmio de consolação para transporte lento

E o de passageiros? Curioso que em países bem menores que o Brasil, linhas de longas distâncias nunca são feitas de ônibus. No máximo, ônibus só são utilizados em linhas cuja distância é a mesma de uma linha como "Rio-Cabo Frio". Distâncias maiores que isto, o transporte terrestre é feito por trem. 

Mas continuamos com a ignorante ideia de utilizar ônibus em distâncias absurdamente longas. Há até uma linha que liga o sul do país a Região Amazônica. Os passageiros que usarem essa linha do começo ao fim devem enfrentar um verdadeiro e longo pesadelo.

Mas o que as empresas fazem? Preferem colocar itens de conforto, poltronas, ar condicionado, internet wi-fi, enfim itens que existem de fato nas casas dos passageiros e que poderiam ser melhor usufruídos se as viagens fossem mais curtas. E isso não acontece apenas nas linhas distantes.

Engarrafamentos tem aumentado muito o tempo das linhas urbanas e interurbanas. Empresas tem preferido colocar itens de conforto, já que as fábricas de automóveis proíbem qualquer lei que impedisse a livre circulação dos automóveis particulares. A publicidade tem sido excessivamente proselitista no estímulo ao uso cotidiano do automóvel. Fazer o quê?

Redução de tempo livre embrutece seres humanos

Com isso o tempo livre que temos  para nos dedicar está cada vez mais reduzidos. Já cometemos o grave erro de estipular 8 horas diárias para o trabalho. Logisticamente seria muito melhor se fosse limitado a meio turno o horário de trabalho. 

Essa falta de tempo livre tem embrutecido as pessoas que sem de seus trabalhos mais preguiçosas e consequentemente pouco interessadas em desenvolver traços de intelectualidade e de afeto, resultando nas atrocidades e nos desfiles de ofensas e de ódio recíproco que vemos nas redes sociais, todos resultantes simultaneamente da ignorância e da falta de afeto, que poderiam ser desenvolvidas através do autoconhecimento. 

Os engarrafamentos tem reduzido ainda mais o já escasso tempo livre. Autoconhecimento? Esqueça. Com esse tempo reduzido, não há líder religioso ou psicólogo que consiga estimular o autoconhecimento humano.

Lembrando que tempo livre não é sinônimo de ócio. Emprego também não é sinônimo de trabalho, já que emprego é o trabalho que você exerce para interesse alheio em troca de remuneração. Aliás, pelo contrário, a redução de tempo livre é que estimula a preguiça. A vida privada oferece muitas oportunidades de trabalho pessoal que são adiadas ou canceladas por causa do cansaço adquirido por um emprego estressante.

Soluções estereotipadas de transporte

E o que as autoridades fazem? Simples. Recorrem a estereótipos de melhoria de transportes, muito mais belos que eficientes, já que eles precisam mostrar serviço. E não tem a menor graça mostrar um ônibus pequeno que roda em uma rua comum. O BRT vaio como uma "luz" a brilhar nos olhos das autoridades.  Nem mesmo os problemas resultantes de sua implantação conseguem  tirar os brilhos de autoridades e entusiastas que se iludem com este tipo de transporte.

E amanhã teremos mais eleição. Certamente os projetos de mobilidade continuarão privilegiando os meios que rodam em asfaltos. Fabricantes de ônibus, automóveis e caminhões tem poder político e nunca permitiriam projetos que fossem contra seus interesses particulares. 

E quem perde e a população, que vê o tempo passar mais rápido com uma mobilidade cada vez mais lerda, sem o precioso tempo livre que o faria ser uma pessoa melhor.

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